sábado, 18 de agosto de 2012

Sobre morrer

Não tenho medo da morte.
A morte, para mim, não é um grande dia, em que tudo chega ao final.
Também não é uma força externa que vem para levar tudo o que temos.
A morte começa em vida.
A primeira morte é causada pelo tempo. A cada dia, a cada mês, a cada aniversário morremos um pouco.
Morre o nosso eu criança, morre o nosso eu jovem, morre o nosso eu passado. E junto com eles, vai-se ainda grande parte das lembranças.
A segunda morte é causada pelos amores. Ah, esses são assassinos de primeira. Sorrateiros, chegam de mansinho, acariciam, alegram e, no fim, levam parte de nós. Eles partem o coração, órgão vital do corpo humano. Cada novo amor é um desfibrilador, que reanima o coração, fazendo ele bater ainda mais forte, mas mais cedo ou mais tarde vai tornar a pará-lo.
A terceira morte em vida é causada pelas decepções. As decepções são alimentadas por pessoas e esperanças. Basta acreditar. Basta confiar. Basta sonhar. Eis que o que parecia tão simples, ou sincero, ou certo, nos decepciona. E uma parte de nós morre ali. Dali então, o sorriso diminui a largura. A cama aparenta ser mais segura. E a lembrança vira amargura.