Não tenho medo da
morte.
A morte, para mim, não
é um grande dia, em que tudo chega ao final.
Também não é uma
força externa que vem para levar tudo o que temos.
A morte começa em
vida.
A primeira morte é
causada pelo tempo. A cada dia, a cada mês, a cada aniversário
morremos um pouco.
Morre o nosso eu
criança, morre o nosso eu jovem, morre o nosso eu passado. E junto
com eles, vai-se ainda grande parte das lembranças.
A segunda morte é
causada pelos amores. Ah, esses são assassinos de primeira.
Sorrateiros, chegam de mansinho, acariciam, alegram e, no fim, levam
parte de nós. Eles partem o coração, órgão vital do corpo
humano. Cada novo amor é um desfibrilador, que reanima o coração,
fazendo ele bater ainda mais forte, mas mais cedo ou mais tarde vai
tornar a pará-lo.
A terceira morte em
vida é causada pelas decepções. As decepções são alimentadas
por pessoas e esperanças. Basta acreditar. Basta confiar. Basta
sonhar. Eis que o que parecia tão simples, ou sincero, ou certo, nos
decepciona. E uma parte de nós morre ali. Dali então, o sorriso
diminui a largura. A cama aparenta ser mais segura. E a lembrança
vira amargura.
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