Quanto ao título, embora a amiga em questão fosse um pouco assanhada, não se refere a nenhuma parte do corpo dela, e sim a um objeto antigo. Porque, sim, o ano era 2004, mas a estudante tinha ganhado o tal do rabo quente da avó, que sentiu pena das dificuldades enfrentadas pela mocinha, que morava em pensionato. Para quem não conhece – eu também não fazia a mínima ideia que isso existia até então – o rabo quente é um aquecedor de água.
A avó, inocentemente, acreditava que a amiga ia usá-lo para fazer chá e café. Mal sabia...
17 anos, né? A gente quer ser rebelde e acha que fumar é “cool”. Só que nem isqueiro tem. E, poxa, descer três andares para pedir emprestado pra algum amigo não estava em cogitação, em um domingo frio. Por que não tentar acender com rabo quente, né? Pareceu uma boa ideia na hora.
Nem o caboclo pré-histórico que foi o primeiro a raspar as duas pedrinhas para fazer fogo teria se arriscado com aquela parafernália. Eu nem sei como aconteceu ao certo... Em um minuto estava observando a amiga, o cigarro e o rabo quente e... BUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUM!
De tragada a estragada... a moça entrou em desespero. Correu para o banheiro, e a última coisa que deve ter visto foi que os estilhaços estavam no rosto e nos olhos, além da minha cara de pânico atrás. Desesperadas, corremos para o hospital.
Momentos de muita aflição, horror e pensamentos do tipo "como vamos explicar isso para os nossos pais?". Enquanto isso, a enfermeira que lavava os olhos da amiga tentava nos acalmar: "já vi cada coisa aqui... já teve gente que chegou com feijões nos olhos, depois que a panela de pressão explodiu". Se eu já tinha medo da tal da panela, imagine depois desse relato...
(eu cozinhando depois)
A amiga era daquelas de parar o quarteirão. Linda que só ela. Eis que o médico que a atendeu veio com a aterrorizante notícia de que TALVEZ com uma cirurgia plástica o rosto dela voltasse ao normal. Coitada. Eu já comecei a pensar que teria que aprender a conviver com a versão feminina do Fred Krueger, mas apelei a todos os santos e fiz milhares de orações, jurando que jamais colocaria um cigarro de novo na boca se ela se recuperasse.
Foram algumas semanas frequentando o cursinho de óculos de sol, enquanto eu fazia o papel de cão-guia. Se eu honrava a promessa e passava longe dos cigarros, a amiga tinha a audácia de acendê-los na minha frente (e com a minha ajuda, ainda por cima).
Surpreendentemente, pouquíssimo tempo depois,a sortuda (ou devia dizer rabuda?) estava mais bonita do que antes, sem necessidade nenhuma de intervenção do Ivo Pitanguy ou de qualquer outro cirurgião... Mas chazinho, agora,só na chaleira...



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